C. (por brenda luz)

Seus olhos encontraram os meus, com a facilidade de sempre. "Faz um filho comigo?", perguntou C. "Faço", respondi. Explodimos.

 

Foto: Julia Casanova


Entrei naquele estúdio pequeno e intimidador correndo como se não houvesse amanhã. Percebi que ele me olhava com curiosidade e reprovação. "Oi, aonde é o banheiro??", perguntei com certa urgência. "Subindo as escadas", respondeu C., ainda sem entender quem eu era ou o que estava fazendo ali. C. era fotógrafo, e eu havia acabado de invadir seu recinto sagrado sem nenhuma explicação ou cordialidade.

Percebi, no decorrer da noite, que eu exercia um certo tipo de fascínio sobre ele. Seus olhos de jabuticaba, grandes e escuros, me procuravam com uma ferocidade quase desumana. Nada naquele ambiente parecia desviar sua atenção de mim; nem os flashes de uma luz branca e intensa, nem a modelo loira com um corpo escultural. Era a mim que seus olhos buscavam, como se estivessem presos aos meus por algum tipo de imã invisível.

Não demorou muito para que passássemos nossos encontros do estúdio para o bar, do bar para sua casa, sua cama, minha cama, para o parque em uma tarde de domingo e para sua cama mais uma vez. Deixei a voracidade de seu olhar me dominar por completo. "Para de me olhar com essa cara!", eu dizia, entre sorrisos, debaixo de lençóis emaranhados. "Cara de que?", perguntava C, sorrindo de volta. "Apaixonado".

"Somos muito diferentes", eu falava para ele em dias como aquele. "Somos iguais, somos ambos intensos", ele respondia. De fato, éramos. Porém, nossa intensidade se dava de maneiras opostas. C. amava a natureza, explorava com vivacidade as coisas simples da vida e se entregava completamente à sua essência. Eu, por outro lado, sobrevivia do caos da cidade, alimentando meu ego e testando os limites do meu corpo em cada casa noturna. Vivíamos em uma constante harmonia desarmônica, entendendo e recriminando nossas diferenças.

Através de suas lentes, C. me enxergava com perfeição. Eu era perfeita, ali, parada no tempo, nos seus olhos. Era sua arte, sua quase musa. A câmera escondia os defeitos, aparava as arestas, colocava um filtro para deixar mais bonito. A vida, por sua vez, não possui esses artifícios. Por mais que tentássemos, não conseguíamos camuflar as divergências ou evitar as dessemelhanças.

De alguma maneira, acabávamos sempre nos sugando de volta um para o outro. Aquele olhar voraz me possuía, me prendia em promessas não ditas, em desejo e euforia. Queria o suor do corpo dele, nossas pernas entrelaçadas e seus olhos escuros que me mantinham noite após noite em sua cama. C. me encarava com uma paixão sem sentido, sem razão ou fundamento. Logo teríamos que escolher entre o tudo ou o nada, pois a junção de nossos corpos e almas era altamente explosiva, podendo causar uma catástrofe ou criar algo incrivelmente belo.

Acordei cedo em certa manhã. O sol entrava pela janela e batia em seu rosto. Ele já estava de pé e o café já estava na mesa. Andei até ele, com os olhos semi- abertos de sono, vestindo sua camisa favorita. Ele me entregou o chá que me fazia toda manhã: limão, gengibre, mel e alho, para espantar minha gripe eterna. Seus olhos encontraram os meus, com a facilidade de sempre. "Faz um filho comigo?", perguntou C. "Faço", respondi. Explodimos.

Você poderá gostar: